Como criar engarrafamentos?

Augusto César Barreto Rocha (*)

As cidades antigas eram organizadas de tal forma que seus habitantes circundavam o “centro”, onde ficavam os diferentes serviços e comércios. Assim, seus moradores podiam percorrer pequenas distâncias a pé, a partir de suas casas. Em cerca de 30 minutos era possível caminhar para qualquer ponto da cidade. A realidade hoje é completamente diferente.

Com o passar dos anos, a cidade acessível para caminhadas foi sendo modificada, com a introdução dos veículos motorizados. Isso permitiu uma maior liberdade e cidades maiores. Todavia, consciente ou inconscientemente, as pessoas não esperam gastar mais do que 30 minutos para fazer seus deslocamentos diários. Por conta disso, diferentes modelos de cidades foram concebidos, para que os moradores tivessem tal possibilidade e, com isso, bairros afastados ou cidades-dormitórios foram construídas, com acessibilidade ao centro da cidade-maior, reduzindo a pressão dos custos dos terrenos mais próximos às áreas centrais.

Com o desenvolvimento econômico e os incentivos para o comércio de automóveis, as cidades foram tomadas por estes veículos individuais, que ocupam grande espaço urbano para transportar normalmente uma única pessoa. Entretanto, na lógica perversa desta questão, quanto mais vias e acessibilidade se cria, maior valor terá o solo daquela área servida pela via e maior atratividade ela terá para os habitantes. Por isso que, ao se fazer uma duplicação de avenida ou construir-se um viaduto, em pouco tempo aquela via estará saturada por veículos e novamente engarrafada. É um ciclo sem fim.

A única forma de quebrar esta lógica é pensar de uma forma diferente do natural aumento continuado da acessibilidade. O privilégio deve ser dado aos métodos não motorizados e depois aos transportes coletivos, pois, da forma usual, as pessoas serão obrigadas a usar veículos motorizados, o que levará a um alto custo de infraestrutura viária por conta do espaço que cada carro ocupa durante o movimento ou estacionado.

Assim, reduzir congestionamentos é possível a partir de ações simultâneas que: (1) concebam a estrutura e organização da cidade para o movimento não motorizado e (2) priorizem e incentivem o transporte coletivo organizado, seguro e efetivo em custo. Assim, as pessoas terão motivos para fazer percursos a pé, de bicicleta, por meio de um transporte coletivo e somente considerará o automóvel como última opção, para viagens que sejam fora de sua rotina diária.

Essas ações levam, em longo prazo, a um gasto total inferior. O transporte coletivo deve ser sempre privilegiado, de tal forma que seja mais rápido e barato trafegar por meio dele do que por meio do transporte individual motorizado. Em textos futuros detalharei cada um destes dois formatos.

Antes que esqueça, para criar engarrafamentos em longo prazo é simples: não organize a cidade pensando nos deslocamentos, reduza a importância do transporte coletivo e incentive o uso de automóveis.

* Doutor em Engenharia de Transporte  e professor de Planejamento dos Transportes da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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