Sucatear para privatizar

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Por Carlos Fábio

Desde o inicio de 2009, prometi a mim não comentar nada sobre o trânsito por não acreditar mais nos administradores locais. Aliás, acredito que estão somente preocupados com os seus próprios umbigos. Todavia, minha indignação foi além do silêncio e resolvi me expressar, em poucas palavras, em relação ao caos por qual passa o trânsito de Manaus.

Sabemos que o trânsito pode ser discutido sobre diversas vertentes: engarrafamentos, aumento da frota, sistema viário, educação, entre tantos outros. Seriam infinitos debates sobre a sua melhoria. O que me traz foi o que vi, nesta quarta-feira (28/10), os descasos com os acidentes de trânsito e a falta de atitude por parte da administração municipal.

Passei pelo acidente envolvendo um Renault/Sandeiro e uma Nissan Frontier, na avenida Pedro Teixeira, próximo ao Carrefour, por volta de 12h (Foto 1). Ao fazer esse mesmo trajeto, às 15h, pasmem, os veículos se encontravam no mesmo lugar. Na foto 2, ao me deslocar para deixar minha filha no colégio, às 13h30,  observei essa colisão na avenida D. Pedro, perto da Escola Fundação Bradesco. Às 15h30, os veículos ainda estavam na mesma posição. Carros trafegavam pela contramão de direção, fazendo ziguezagues para driblar o acidente.

A pergunta que não cala é: onde está o órgão municipal gestor do trânsito em Manaus? Onde estão os agentes de trânsito, profissionais considerados como melhores servidores públicos no ano de 2001, em pesquisa realizada pelo jornal A Crítica, para fazer a demarcação e desobstrução da via, enquanto os condutores aguardam a perícia do Detran?

A resposta é simples: não há efetivo suficiente para atender toda a cidade, pois o órgão responsável (leia-se IMTT) não investe na categoria em todos os sentidos. O IMTT promete, mas não realiza concurso público para suprir a carência de profissionais. Os salários, que no inicio da profissão chegaram ao patamar de 4 salários mínimos, hoje variam de 1,9 a 2,6 salários, desestimulando tanto os profissionais que atuam, quanto quem pretende ingressar na carreira pública. É um descaso não apenas para os servidores, mas para a população em geral, que sofre com a ausência de políticas públicas para o trânsito e a expõe ao risco cometer mais colisões por falta de atendimento aos acidentes que estão em percusso.

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Pensem nos condutores envolvidos nos acidentes acima. Cidadãos pagadores de IPVA, seguro obrigatório, com veículos relativamente caros, ficam à mercê horas e horas, do órgão municipal e estadual, a espera de solução para seus problemas num calor de mais de 40º graus.

Agora, analisem quem transita nas proximidades das colisões. Engarrafamentos, estresses, malabarismos e exposição elevada de se envolverem em mais acidentes de trânsito. É o verdadeiro caos.

Solução para o problema? Investimentos em Recursos Humanos e incentivo aos que estão e aos futuros agentes de trânsito. Em breve teremos a saída de, aproximadamente, 20 profissionais para a Polícia Civil. Isso diminuirá o quadro a níveis alarmantes.

A sociedade precisa ficar atenta ao fato. Pois é fácil, chegar a impressa e dizer que os funcionários são desqualificados ou “propineiros”. Fácil também é sucatear para privatizar. Difícil é encontrar pessoas competentes, que tomem atitudes eficazes e benéficas para o trânsito de nossa cidade.

Fica minha indignação e tristeza.

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4 Comentários em “Sucatear para privatizar”

  1. Antonio Silva Says:

    Realmente os fatos que estão acontecendo são tristes. Porém o que mais me entristece é ouvir novos tipos de ofensa por parte dos usuários da via, como estas: “Acabou!” ou “Vão acabar junto com as multas!”.Gostaria de alertar a população neste sentido, pois muitos pensam que os “azulzinhos” multam demais ou fazem parte de alguma “indústria de multas”. Hão de descobrir, depois que possivelmente uma empresa particular assumir, que os “azulzinhos” multavam bem pouco. Vejamos os fatos: Como já foi dito uma empresa pública visa servir à população e punir infratores, e uma empresa privada visa somente o lucro, portanto o número de multas tende a aumentar, pois os funcionários serão pressionados a autuar até os mínimos detalhes que estiverem ao alcance, ou seja, não acabaram as multas, mas sim o bom senso e orientação antes de ser aplicada a lei.

    Apoio ao Sindicato!

    Antonio Silva

  2. Rilson Costa Says:

    “Onde estão os agentes de trânsito, profissionais considerados como melhores servidores públicos no ano de 2001, em pesquisa realizada pelo jornal A Crítica, para fazer a demarcação e desobstrução da via, enquanto os condutores aguardam a perícia do Detran?”

    Querido colega. Resolvemos transcrever esta parte do seu comentário porque desde que foi acertadamente criado este espaço, estamos batendo na tecla pelo fim do atendimento de acidentes sem vítimas, conforme orientação do artigo 178 do CTB onde fica muito claro que a responsabilidade para retirada dos veículos da via não é somente do agente de trânsito e nem do perito mas primeiramente dos próprios envolvidos e isto, se não cumprido, é passível de autuação. Outro dia fomos acionados para atendimento de um sinistro desta natureza e um dos envolvidos era funcionário da companhia de trânsito de São Paulo/SP que após a colisão, contou-nos ele, saiu de seu veículo para chamar o outro envolvido a fim de fazerem o boletim de ocorrência na delegacia mais próxima quando, surpreso, ouviu a seguinte resposta: “não vamos tirar o veículo da rua não pois aqui em Manaus nós ficamos aguardando a perícia com os veículos no meio da rua mesmo. Basta ligar que eles vem” O Local? a ponte que liga o Boulevard à Av. Paraíba. O horário: 13:00h num dia comum de semana. Agora que já acostumamos a população e a perícia a esperarem por nós vai ser complicado para tentar desacostumar até porque parece que os gestores de trânsito querem que continue como está. Estamos encaminhando inclusive uma sugestão para o Contran para na reforma do CTB alterar a natureza desta infração para gravíssima e com efeito multiplicador por 3.
    Abraços.

    • Carlos Fábio Says:

      Caro colega,
      Vc realmente está correto quando diz que não é uma obrigação do agente ou perito do Detran fazer o atendimento as colisões que seja apenas com danos materiais.
      Porém, também a de concordar que, em nosso caso(Manaus), esse costume é cultural. Antes mesmo da entrada da nossa categoria, o costume já existia.
      Não é fácil mudar costumes e, deixando de atender essas colisões, o trânsito de nossa cidade só tende a piorar como comentei. Para haver mudanças é necessário uma conscientização maciça por parte não somente dos órgãos municipais, mas da imprensa, das instituições parceiras e da própria população. E Isso na prática é bastante dificil, porque não envolve apenas a vontade de se melhorar o trânsito, mas também interesses politicos, recursos financeiros, etc,etc.
      Por isso, “não acaba-se com o adultério retirando o sofá da sala”, mas investindo no ‘relacionamento’ para que ele não aconteça. Ou seja, Esse é um problema em nossa cidade, ainda vai persistir por muito tempo e não adianta tentar explicar o CTB para a população. Cabe sim, o IMTT investir mais em recursos humanos, aumentar o efetivo de agentes, proporcionar mais segurança no trânsito para a população a quem serve, para depois, aos poucos…trabalhar para mudar essa cultura que só acontece em Manaus.
      Quando vc abordou esse fato…me veio a cabeça também o seguinte: Os agentes(IMTT) trabalham de graça para esses eventos particulares(shows da M1 e fabrica, entre outros) e não tem um projeto-de-lei que regule isso? Em outras cidades, como SP, já existe. Até pra aumentar a hora-extra dispensada para tal evento? Nada! Estamos muito atrasados. E alguém discute isso no momento?
      abraços colega

  3. Rilson Costa Says:

    Pois é, caro colega!
    Iniciamos uma conscientização ainda que tímida nestes casos. Outro dia, ao orientarmos os envolvidos em determinado acidente, fomos obrigados a autuar uma das partes que se negara a fazer a retirada. Acredito que como você disse bem, iniciou aos poucos e aos poucos vamos conseguir chegar lá.
    Um abraço.


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