LOUCOS NO TRÂNSITO*

Muito se fala sobre as consequências que a idolatria ao automóvel tem provocado ao meio ambiente e à saúde do homem. E elas são sérias, sem dúvida. Mas a sociedade contabiliza com menos fervor o prejuízo que essa idolatria traz às relações humanas, à convivência entre cidadãos. Essa paixão pelo carro, onde dar a vez ao motorista vizinho é sinônimo de fraqueza e desmérito, está produzindo loucos ao volante. Semana passada, uma economista de 43 anos foi vítima de uma mulher ensandecida, sem condições psicológicas de conduzir um veículo. Para evitar exposição e até represálias criminosas, ela não quer ser identificada.

Mas relatou à coluna que terça-feira (1/9) estava na Avenida Agamenon Magalhães, na altura do cruzamento com o Parque Amorim, área considerada o pulmão viário do Recife, e uma mulher num veículo Celta parou o trânsito para comprar frutas no semáforo. Apesar de estar na faixa da esquerda, a condutora do Celta simplesmente ignorou o sinal aberto e continuou com o drive-thru. “Eu buzinei, levemente, para alertá-la, mas não teve jeito. Então tirei meu carro e, ao passar por ela, chamei atenção. Mas não a ofendi, nem fui desaforada. Apenas reclamei que ali não era lugar para drive-thru. Mais na frente, quando parei no sinal, fui surpreendida pela mulher, enlouquecida, fora do carro dela, batendo freneticamente no meu capô”, conta a economista.

Ao sair do veículo, já que a mulher forçava a porta para tirá-la do carro, levou um soco no rosto. A violência foi tanta que ela caiu no chão. Na queda, fraturou o pulso. “Minha primeira reação foi de revide. Mas me contive. Apenas anotei a placa do carro e, num momento de impulso, dei um soco no capô dela. Aí ela enlouqueceu. Eu percebi que, se não me protegesse, me mataria. Corri para o meu carro, com ela atrás. Nesse
momento, graças a Deus, surgiram cinco ou seis homens do nada, que tentaram contê-la. Eu entrei no carro, mas ela sentava no banco comigo, para evitar que eu saísse. Dizia que eu tinha batido no veículo dela. Até que os homens conseguiram segurá-la e eu fui embora, em pânico”, relata.

“Eu percebi que, se não me protegesse, ela me mataria. Corri para o meu carro, com ela atrás”

Apesar do medo, a economista prestou queixa na Polícia Civil por lesão corporal dolosa (intencional) e já contratou um advogado para acionar a agressora civilmente. Sente-se na obrigação de agir para evitar que a mulher volte a fazer o que fez com outros condutores. “Mesmo que eu tivesse ofendido a mãe dela ou batido no carro, por exemplo, não haveria motivo para ter agido daquela forma. Era uma louca ao volante, sem qualquer condição de conduzir um veículo”, conclui a vítima. Infelizmente, a polícia não tem estatísticas sobre casos de agressão no trânsito, mas eles vêm se tornando cada vez mais comuns. Há episódios, inclusive, que terminam em morte. Portanto, já que não podemos nos livrar dos automóveis e as ações que facilitam a mobilidade urbana, como investimentos em transporte público, por exemplo, demoram a acontecer, relaxemos quando estivermos ao volante. Afinal, dirigir é o maior dos exercícios de civilidade que um homem pode praticar.

* Texto publicado no Jornal do Commércio de Recife, na Coluna “De Olho de Trânsito”, em 06/09/2009

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